Musa

Musa

Sou muito independente e tenho orgulho disso. Me tornei uma mulher que é agente de si mesma, que é dona de uma voz, algo raro e precioso. Um privilégio em um mundo de mulheres oprimidas e silenciadas, e luto todo dia para que não seja uma sorte, mas o justo. Há um preço para tudo que somos e escolhemos, e sempre valeu a pena ser quem sou, mas como tudo na vida, tem seus incômodos.

Vai ser bem machista o que eu vou dizer, eu sei, mas preciso confessar esse segredo, que só digo em sessões de terapia ou em texto. Às vezes eu não queria ser a poeta, mas a musa. Mesmo sabendo que é revolucionário e fundamental sair da posição tradicional da mulher na arte, de musa passiva, e ser a agente, a voz que cria, e quem escolhe suas musas e musos. Amo estar nessa posição, foi escolha e também imposição do dom e do destino. Uma cruz e uma benção que eu vivo para carregar, com todo o amor e a entrega que se pode ter no universo.

Mas, como amante da arte que sempre fui, ao ouvir canções como “Um girassol da cor do seu cabelo”, “Irmã de Neón”, “Amor de índio”, que são algumas das minhas músicas preferidas, ao ler os poemas de Vinícius de Moraes, minha formação como leitora na adolescência, eu penso que daria tudo para ter inspirado uma canção dessas. Para ter cruzado com alguém que me tirasse um pouquinho da posição de criadora, e me criasse, aos seus olhos, possivelmente de maneira exagerada, e desse vida a uma obra.

Estive desde que me lembro na posição de observadora, de apaixonada por pessoas, lugares e movimentos, e fazer deles poemas, frases, textos, livros. Vivências que aconteceram só na minha cabeça e nas minhas palavas, ou que, pelo menos, nelas foram mais plenas e bonitas. Tive tantos amores, amigas, amigos, conhecidos, desconhecidos que fizeram cantar a musa, bagunçar minhas madrugadas, escrever com lápis de olho em guardanapos de bar só pra não perder a rima. Gosto tanto que seja eu a pessoa que pode, por natureza e esforço, ver nos outros inspiração.

Me sinto uma verdadeira deusa quando suo, quando menstruo e quando escrevo. Ganhei o poder de criar vidas quando nasci com um útero e um talento.

Mas, confesso baixinho, quase em segredo, que tenho um pouco de inveja das pessoas que inspiraram todas as canções e poemas que eu amo. Que ajudaram a fazer arte, que foram esses objetos de sonho. Quando ouvia “uma tigresa de unhas negras e iris cor de mel”, “Quando decidir faça-me um sinal, e eu estarei apto para ser seu e pronto”, “O meu pensamento tem a cor do seu vestido como um girassol que tem a cor do seu cabelo”, suspirava e sonhava que um dia seria musa também.

Então me lembrei que nasci um pouco deusa, e muito auto suficiente, lembrei que tenho esse superpoder que é a observação e abstração, e realizei meu antigo sonho sendo musa para mim mesma. Consegui me olhar com a distância necessária, ou quase, com compaixão e encanto, a ponto de me inspirar comigo mesma. Bom, não fiz nenhuma canção de Caetano, Milton, Lô Borges ou Djavan, muito menos Vinícius de Moraes, mas toda musa tem o escritor que merece.

1 Comment
  • Alice Monteiro Penna Firme
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    Aplausos!!! A jovem escritora Clara Mello pede passagem!!! E mostra que não está aqui de passeio…

    23 de setembro de 2017 at 13:41

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