Sol

Sol

Faço aniversário em Agosto, dia 23 mais especificamente. Essa quarta-feira, ainda mais especificamente. E todo ano a mesma coisa: Torço, peço, imploro aos céus que faça sol na minha semana. Porque sou solar, não tenho e não gosto de roupa de frio, quero botar a barriga e os braços de fora em paz, tomar cerveja bem gelada, e de gelado só a cerveja mesmo, fazendo favor. Favor que nunca me é concedido, porque as forças da natureza são implacáveis. Todo ano peço sol, e ele nunca vem. Talvez para me lembrar que sol mesmo é o que tenho na testa, é o que vem de dentro de mim.

Esse ano não fiquei triste com a ausência do sol, trabalhei para lembrar que ele brilha e aquece dentro de mim, como um farol, um presente do astral que eu ganhei  para me guiar. Um sol dentro do peito, dentro dos olhos, que vaza no sorriso, ou nas lágrimas. E por falar em sol, esse danado se escondeu tanto a ponto de nos dar um eclipse, que estão dizendo que vai trazer mudanças. E eu, que nunca tive medo delas, me entrego pro sol escondido exercer sua mágica. Mudei tanto, e mudei coisas que acreditavam ser a minha essência. E mesmo assim, nunca me perdi de mim.

O sol, a estrela desse pensamento, entra em virgem em dois dias, e eu comemoro mais um ano de vida. Na transição do ego para a doação, do caos leonino para a organização virginiana, no sol virgo na casa 5 que me fez nascida para servir e doar com prazer e amor, e também pra brilhar sempre. Que me fez sábia dos ineditismos, corajosa no desconhecido de tudo, virgem das sensações cansadas. Insegura e crítica, para nunca acomodar, corajosa e vaidosa, pra me jogar na vida, como se não tivesse amanhã. E pensando no amanhã desde ontem.

O sol interno brilha e dança, à revelia da chuva, porque me sinto feliz na minha constante melancolia, nas contradições que escolhi ou não sustentar, feliz comigo: a mulher que parece sempre uma menina, a menina que virou mulher dentro de si, quando ninguém estava olhando. Feliz porque fiz as pazes comigo, e como eu estava com saudade de mim! A menina do sobrado 59, a menina do laço de fita no cabelo, a menina que lançou livros aos 16 anos, que foi morar sozinha aos 19, que descobriu tão cedo o amor e a dor, que mata a dor no peito, que encara os espelhos que a vida dá, e que é capaz de chorar com a própria imagem, de comoção e compaixão. A mulher que se aproxima dos 24, sabendo que isso ainda é “uma menina”, e ciente de que a vida não é só o carnaval dos vinte e poucos. A mulher que platina o cabelo para combinar melhor com a personalidade, que passa batom vermelho, que vai aos sambas embalar o corpo e alma, que vive para se apaixonar por dias, pessoas, músicas, lugares. A mulher que tem capacidade de amar, e de se renovar. A mulher-menina que é independente de doer, e ao mesmo tempo, carente e manhosa. Menina-mulher tão livre, que aprendeu “libertário” como palavra preferida ainda tão pequena, e tem o cupido como karma ou amigo íntimo. A mulher e a menina que sempre foram do mundo, como sempre foram de casa. E filho de peixe, sereia é. Seja de água ou de asas.

Com a noção de que já viveu muitas vidas numa só, com a sede de quem acabou de descobrir o mundo. Com a constante timidez de quem se despe aos olhos de desconhecidos, ou de um saudoso grande amor, e com a ousadia de quem sempre se achou a passista do próximo carnaval.

 

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