Minha visão de Dom Casmurro

Minha visão de Dom Casmurro

Queridos, quem me acompanha no instagram está vendo que tenho falado semanalmente de livros que eu amo, e que são importantes na literatura brasileira e mundial. Fiz stories e uma live para comentar a minha interpretação de Dom Casmurro, classicão de Machado de Assis, que todo mundo conhece. Pelo menos, alguma coisa.

O que é esse alguma coisa? Capitu traiu Bentinho? Bentinho acha que Capitu o traiu? Traiu ou não traiu?

Como muita gente perdeu, vou postar todas as explicações que dei por aqui. Lembrando que, tudo que se segue é a minha interpretação, está longe de ser verdade absoluta, é apenas como eu li o livro. Espero acrescentar algo de diferente na visão de vocês, até porque, para ver o óbvio ninguém precisa de mim, né? rs. Esse post contém spoiler, mas lê sem medo porque nada fará Dom Casmurro perder a graça.

Antes de entrar no livro propriamente dito, deixa eu te contar algumas curiosidades, ele foi publicado pela primeira vez em 1899, e diferente de outros livros do Machado e da época, ele foi pensado para ser publicado e lido de um vez só, e não em folhetim. O que eu considero mais uma pista de que a gente tem que pensar nele como um todo, e conectar todos os detalhes. Junto com Memórias póstumas e Quincas Borba, esse é o livro mais famoso do Machado, estudadíssimo fora do Brasil e dentro nem se fala.

Confesso que eu particularmente não gostava de Machado de Assis, e me sentia culpada por isso, nem ousada dizer em voz alta, porque reconhecia sua importância. Até que peguei uma disciplina na faculdade, onde estudamos Machado a fundo e eu tive oportunidade de ler vários livros de novo, como foi o caso de Dom Casmurro, e me apaixonei perdidamente. Amo falar desse livro porque é um dos meus favoritos na vida todinha.

Bom, nós aprendemos algumas coisas sobre Machado, talvez a maioria se lembre. E como boa questionadora, quero pensar junto sobre isso. Ouvimos sempre dizer que Machado é o primeiro autor realista brasileiro, e que Brás Cubas é o primeiro romance realista brasileiro. Mas será? Um morto-vivo (defunto autor) que volta para escrever sua história e a dedica para os vermes que estão comendo seu corpo. Será que isso é realista?

A outra coisa que aprendemos é que Machado é irônico, e isso eu concordo, mas o sentido que entendemos ironia na maioria das vezes é que é o problema. Eu tinha uma apostila escolar que dizia: Irônia – dizer uma coisa querendo dizer o oposto. No senso comum às vezes é isso, mas nesse caso, acredito que seja uma ironia filosófica, ir se perguntando e se contradizendo até extrair o sentido mais “puro” da palavra. É de alguma maneira se bifurcar porque quando penso sobre mim já sou dois: O eu pensante e o eu pensado.

O narrador do Machado muda porque quem está falando muda, mas há algumas características que permanecem. Esse narrador é multiperspectivado, isto é, tem sempre mais de um ponto de vista, nem que seja da mesma pessoa. Como no caso do Brás Cubas, o que viveu, e o morto que volta para contar o que viveu, e em Dom Casmurro, que há o Dom Casmurro e o Bentinho. Esse narrador é também conciso, escreve curto, e enxuto. E é (essa palavra aprendi na faculdade, anota que fica chique) parabático. Isto é, para sua função de narrar para refletir. Isto quase todo narrador de boa literatura faz, mas no caso do Machado ele conversa com o leitor. Muitas vezes chega a dizer “caro leitor”, ou “cara leitora” porque no século 19 quem liam livros em sua maioria eram mulheres. Donas de casa burguesas que podiam se dedicar a este hábito. E este narrador não só conversa com você leitor, como te sacaneia o tempo todo. Ele ri, te chama de bobo, e te coloca pra pensar sempre. Porque se Machado não quer doutrinar o leitor, ele também não quer o leitor que se doutrina.

Machado de Assis fez uma revolução sem se apresentar como revolucionário, cria personagens de elite, como Brás Cubas, e coloca na boca deles o “inconfessável”, coisas perversas. Desmistifica a classe dominante pela própria classe dominante.

Machado desmistifica também essa coisa de que nós somos seres racionais, e esse é o nosso grande trunfo. Ele prova que nós somos movidos a paixão. E não que a paixão seja motivo de aplausos, mas a razão também não. Só a literatura pode fazer essa coisa maravilhosa que é utilizar uma linguagem dual para explicar o que é dual. A-do-ro.

Dual é a chave da minha leitura de Dom Casmurro. Porque eu acredito que a história é narrada por dois personagens, Dom Casmurro (Bento Santiago mais velho, que já viveu), e Bentinho (Bento Santiago jovem, no momento em que está vivendo), e eu acredito que, na medida em que Bentinho condena Capitu, Dom Casmurro a defende e o condena. Há dois narradores: O eu agora e e o eu outrora.

Tá, legal sua teoria, Clara. Mas qual suas provas?

Mas eu posso explicar. Vamos lá.

Eu começo minha análise pelo nome das personas. Dom Casmurro, ele diz logo no primeiro capítulo,foi um nome que lhe deram e ele aceitou, e diz “não vá procurar no dicionário”. Não preciso nem dizer que é pra olhar no dicionário, né, gentes. E quer dizer cabeça dura, turrão, teimoso. E Bento Santiago, é o que eu acho mais interessante. Bento + Iago. Iago é o personagem de Otelo, do Shakespeare, que planta a semente da discórdia da possível traição. Ou seja, santo com toques de Iago. E da onde eu tirei esse Iago? Há dois capítulos com referências a Otelo. Um que se chama “Uma ponta de Iago”, que é quando Bentinho começa a ter ciúmes. E um que chama “Otelo”, quando ele vai assistir a essa peça.

Mas, temos mais explicações: É óbvio que não será uma defesa explícita, meus amores, porque a gente tá falando é de Machadinho. Da mente do mal que criou um Brás Cubas não vai sair nada óbvio. Ele defende demonstrando a mediocridade de Bentinho, em oposição à coragem e ousadia de Capitu, e por alguns símbolos.

Há um capítulo chamado Panegírico de Santa Mônica. Panerígico é uma espécie de louvor, e Santa Mônica foi assassinada pelo marido por ciúmes. Quer dizer, fica a dica aí. Além disso, há um capítulo em que ele fala de uma égua que engravida do vento, e ainda diz “A imaginação foi companheira de toda a minha existência”. Quer dizer, parece em vão, mas ele está te dizendo aí muito sutilmente, eu gero ideias que surgiram do vento, do nada, e sempre imaginei coisas. Vai construindo aí esse perfil de personagem.

Há outras provas da mediocridade dele, em oposição a maravilhosidade de Capi (somos íntimas), ele chega a dizer “Ela era muito mais mulher do que eu era homem”. BRASIL, se isso não é ele dizer que é um merda, eu não sei mais o que é. Desculpa, eu me empolgo. Vamos lá.

Além disso, ele próprio diz que suas ideias são “sem língua, sem braço e sem pernas”, ou seja, só pensa e não faz nada a respeito. Aliás, meus amores, sem Capitu ele tinha ido ser padre e pronto, acabou, porque ele não consegue enfrentar nem a própria mãe. Vamos combinar que enfrentar a mãe é a primeira oportunidade de coragem que temos na vida.

Tem uma outra parte em que ele diz que Capitu olhava para baixo, e ele olhava também (para copiá-la), mas que ela olhava para dentro de si, enquanto ele só olhava pro chão mesmo. Ah, gente, ele praticamente desenha.

Outro capítulo é dedicado apenas para mostrar versos ruins feitos por ele. Escrever versos ruins acontece, mas ele acha que estão bons, e ai cabe a nós, leitores, percebermos que ele é um medíocre.

Mas peraí, até agora você só falou dele. E ela?

Bom, Capitu é descrita de um jeito MUITO MARAVILHOSO. Vem comigo nessa emoção que é ler Dom Casmurro, se joga, se entrega. Ela não é descrita fisicamente muito bem, só seus olhos estão em foco. E não são descrições físicas. Bonitos, pequenos, grandes, etc. São “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”, quer dizer, ela não é reta, não é óbvia, não dá para saber o que ela pensa de verdade. Tem “olhos de ressaca”. Não é ressaca de bebedeira não, hein gente, pelamordadeusa, é ressaca do mar. Ou seja, olhos inquietos. Que se mexem, agitados. Ela tem jeitos de dizer que ele é um idiota que me emocionam. Muito sutis, muito inteligentes. #teamocapitu #vamosermuitoamiga #qualéseusigno #eluaeascendente. Quando ele, por exemplo, diz que não tem mais jeito, que vai ter que ser padre mesmo (porque não consegue peitar a mãe), e ela já deu várias ideias para livrá-lo e já sugeriu várias vezes que ele tem que se impôr, ela manda essa ” Ser padre é ótimo, usa meias roxas”. kkk. MEIAS ROXAS. Fica a dica ai, meninas e meninos, quando o boy estiver trevas fala “meia roxa é mara”. Ele pede (muito dramático, deve ser canceriano) para ser o padre a casá-la (um desacato considerando que eles são namoradinhos naquele momento), e ela manda assim: Casamento não, ser padre demora muito, você vai passar anos se formando. Mas você pode batizar meu primeiro filho. VRAU!

Quando os dois estão namorandinho escondido, e alguém da família chega, ela age com muita naturalidade, como se nada estivesse acontecendo, e ele fica em pânico, tenso. Ou seja, ela sabe disfarçar perfeitamente. Nunca dá pra saber se tem algo acontecendo. Sendo assim, depois que se casam e ficam juntos, Bentinho acha que tudo é motivo para desconfiar (já que ele nunca terá motivos reais). Sentiu o drama dessa paranoia?

Ele passa a desconfiar de Escobar, amigo do casal. E aí, ele pega os dois conversando na sala, Capitu age com perfeita naturalidade, ele se lembra desses episódios da infância e desconfia justamente da naturalidade. A falta de provas é a prova dele. Cadê o pessoal da lua em escorpião? (eu inclusive!)

Mas, mesmo quando desconfia, nada faz a respeito. E só age, de novo, quando ela age. E coloca ele na parede. Ou explica o que há, ou ela separa. Então ele diz que vai pensar e que farão o que ele decidir (aham, tá bom, depois que ela já decidiu). O capítulo em que ele conta o que aconteceu chama-se “a solução”, e é maravilhoso porque não tem solução nenhuma, ele simplesmente vai embora e para de respondê-la. Bem madurão ele. Quer ofender alguém, meus caros? Chama de Bentinho!

No final do livro, último capítulo. Aqui spoiler é “de cum força”, como se diz no Piauí, ele dá o xeque-mate da defesa dela (na minha humilde opinião), ele fala que havia duas Capitus: A de Matacavalos (da infância), e da praia da Glória (do casamento e da crise de ciúme). DEPOIS, logo depois, ele diz que não. Olha a dualidade aí, produção. Bentinho x Dom Casmurro travando essa batalha maravilhosa na nossa cabeça.

Que se lembrarmos da infância, veremos que ela SEMPRE FOI A MESMA. Ou seja, a santa e a traidora, a de de Matacavalos e a da praia da Glória, foi ele que criou. Ele que bifurcou, ela sempre foi uma e a mesma. Ele projetou as duas coisas.

Machado, seu lindo, <3.

E com essa eu encerro esse post. Leiam o livro e venham trocar comigo porque eu amo os feedbacks. Provavelmente falei coisas aqui que não falei na live/stories, e falei coisas lá que não falei aqui. Enfim, essa sou eu, perdoa e não desiste de mim. Quarta que vem no instagram falarei mais sobre literatura, me acompanha: @aclaramello

 

 

6 Comments
  • Elisabete
    Responder

    Clara, gostei muito do seu texto.
    Você poderia também escrever sobre outros livros aqui no blog.
    Estou pensando em fazer faculdade de Letras e gostaria também que você escrevesse um post contando um pouco sobre esse curso (quais as matérias que se estuda, os livros que são exigidos, etc), pois vai ser muito esclarecedor para mim.

    27 de julho de 2017 at 11:02
  • Elisabete
    Responder

    Clara, gostei muito do seu texto.
    Você poderia também escrever sobre outros livros aqui no blog.
    Estou pensando em fazer faculdade de Letras e gostaria também que você escrevesse um post contando um pouco sobre esse curso (quais as matérias que se estuda, os livros que são exigidos, etc.), pois vai ser muito esclarecedor para mim.

    27 de julho de 2017 at 11:32
  • Catarina Schumann
    Responder

    E eu fui obrigada a te obrigar a ler!

    Mesmo assim, acho que valeu! Seu ódio à primeira vista por Bento Santiago permitiu que, no reencontro, você o descobrisse de verdade. E, por trás dele, o seu genial criador. Plantei uma semente torta que cresceu árvore frondosa e cheia de frutos. Acho que estou perdoada.

    Bjs da sua professora de Literatura do Ensino Médio, agora sua assídua leitora!

    25 de outubro de 2017 at 02:18

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