Como não comprar

Como não comprar

Venho maquinando esse post na cabeça há muito tempo, porque sempre vejo reclamações, memes, desabafos, enfim, de pessoas falando sobre sua dificuldade em parar de comprar. As pessoas se prometendo comprar menos, passar não sei quanto tempo sem comprar, e sempre penso que eu devia falar sobre isso, já que eu sou uma pessoa que praticamente não compra. Eu compro muito pouco. Deve ter uns três anos que eu não compro roupas, por exemplo, salvo raríssimas exceções que vou explicar mais adiante. E também porque não comprar para mim não é uma promessa, não é como se fosse uma dieta de dois meses, é um estilo de vida.

A primeira razão pela qual não compro quase nada é que não sou mesmo uma pessoa consumista, isso é da minha natureza, nunca fui. Nem quando criança. Me sentia mal que meus pais gastassem em coisas caríssimas para mim, preferia herdar as roupas das minhas amigas maiores (vantagens de ser pequenininha) do que fazer compras enormes. Não gosto de shopping, não consigo passar muito tempo dentro sem enlouquecer. Não consigo olhar vitrines sem ver o que está por trás, trabalho escravo para realizar a roupa, trabalho quase escravo para vender a roupa, ditadura da magreza, mulheres se odiando, enfim, capitalismo selvagem e todos os seus danos. “Mas nossa, que chata você”, pois é, eu sei. Sou chata, sempre fui. Até melhorei. Outro dia, minha amiga de mil anos Bruna me lembrou como era difícil ser minha amiga porque aos 9 anos eu não queria comer no Mcdonalds por ser coisa de capitalista, nas minhas palavras. Se você quer saber, flexibilizei muito rs.

A segunda razão pela qual não compro quase nada é falta de dinheiro mesmo, o motivo pelo qual as pessoas normalmente querem parar de comprar. Meu dinheiro é pouco e contado, e eu prefiro gastá-lo com viagens, cinema, saídas, cursos, do que simplesmente comprando objetos. Prefiro gastar comendo bem e algumas coisas que me dão vontade, e estudar, reinvestir. Novamente, questão pessoal. Para algumas pessoas sair para comer é desnecessário, para mim é um grande prazer, algo que me faz muito feliz.

A terceira razão é que eu acho que quanto menos temos, mais perto estamos de quem somos. Quanto menos roupas você tem, mais você compreende seu estilo, o que você gosta, quem você é está muito mais claro, e você fica muito mais em contato com seu eu mais verdadeiro. Quando menos objetos você carrega, e quanto menos coisas materiais te prenderem, mais livre você é. Quando você tem poucas coisas, você sabe que tem somente aquilo que realmente você ama e que importa. Você fica mais solto e independente, e mais perto do que você realmente é, gosta, dá valor. Isso é lindo.

Ah, então você nunca deseja aquela roupinha, não baba por um sapato, uma bolsa, e as maquiagens? Claro que eu tenho meus desejos de consumo, claro que eu amo o prazer de comprar uma roupa que eu amei, adoro comprar maquiagem e livros, que são coisas que eu amo de paixão. Não descarto que, às vezes, tudo que a gente precisa para levantar o astral é uma roupinha nova que valoriza, e que tudo bem a gente querer isso. Mas, sou realmente comedida, e vou te explicar como, agora que já te expliquei porque.

Eu compro em três ocasiões muito específicas: Se eu preciso, se eu me apaixonei, e em oportunidades imperdíveis. Vamos por partes.

O que quer dizer se eu preciso? Se eu estou precisando de uma calça jeans, casaco, se as meias tão furadas, se tá faltando calcinha. Também não sou a favor da pessoa andar maltrapilha se ela tem a opção de não fazer isso. E quem me conhece sabe que apesar de não comprar, eu sempre estou arrumadinha. Mas o que eu faço primeiro? Vejo se alguma amiga está desapegando das peças que eu preciso, e normalmente tem, depois procuro em brechós. Algumas pessoas tem preconceitos com roupas de segunda mão, o que eu acho um atraso e uma enorme bobeira. O mundo está caminhando de uma maneira que, até para pouparmos os recursos naturais, temos que parar de produzir tanto e saber reutilizar as coisas, isso para mim é questão de inteligência. Então, se você acha pejorativo usar roupas que foram de outras pessoas, vamos rever esse conceito porque você está andando no contra fluxo do mundo.

Eu mantenho com minhas amigas uma rotina de troca de roupas. Minhas amigas já separam roupas que não querem mais e que acham que tem a ver comigo, e eu também. Esse é outro hábito que tenho, e que é bem importante, sempre dar aquela limpa no armário. Ver o que realmente usa, realmente gosta. Porque se não, fica aquela energia estagnada ali, te atrasando. E aquela roupinha que tá mofando no seu guarda-roupa pode deixar uma amiga, ou um amigo bem linda/lindo e feliz por aí. Esse é um hábito que eu tenho, e que você pode ter, independente de estar precisando. Já começa por você, dá aquela limpa no armário e tira o que você não gosta, e oferece para as amigas. Automaticamente, elas vão fazer o mesmo, e você inicia a corrente. Vai estar sempre com roupinhas novas, e todo mundo renovando sem gastar. Tenho peças que já passaram por várias amigas. É um prazer quando você vê aquela roupa que não estava boa em você deixando uma amiga maravilhosa. Você se sente útil.

Eu odeio vitrines, shoppings, afins, mas eu amo garimpar brechós. É como uma brincadeira, você tem que achar joias escondidas. E dependendo do brechó, você acha peças quase exclusivas e diferentes, consegue roupas que já saíram das vitrines por aí, e que são muito boas, com corte maravilhoso, tecidos lindos, e pelo preço que você pagaria numa roupa sem acabamento e que vai durar muito menos. Sempre que alguém vem me falar essa bobagem de “ah, mas é roupa de gente morta, tem energia”, eu devolvo: “Você prefere a energia de crianças escravizadas fabricando seu jeans em massa?” Vamos parar de bobeira, hein.

Bom, feito isso, e nada, vou atrás de comprar a peça que eu estou precisando. E aí, se você puder, vale a pena investir numa peça que vai durar mais tempo. Ou em várias mais baratas, se você estiver precisando de quantidade. Enfim, vai da sua possibilidade e necessidade.

E claro, sempre que possível, em todos esses casos (precisar, se apaixonar e oportunidades) vou chance a pequenos produtores, marcas menores, gente que está começando, fazendo com amor, de um jeito mais artesanal. Feirinhas, estilistas, gente que faz com as próprias mãos. Isso faz a roda da fortuna girar para todo mundo.

O que quer dizer se eu me apaixonei? Essa é uma categoria perigosa para iniciantes hihi, porque tem pessoas que se apaixonam muito fácil, acham que precisam daquela peça, e aí na verdade, não precisam e passam a não gostar dela no momento em que chegam em casa. Se você é dessas, comece abolindo essa categoria até ficar mais fortinho. Mas, como eu não sou dessas, e como eu disse, eu flexibilizei. Fui entendendo que não havia nada demais em me dar de presente aquela peça que eu me apaixonei, e que ficou linda em mim. Estou usando exemplos de roupas porque é o problema da maioria, mas vamos falar do meu problema: Livros. É meu ponto de consumo. Tenho feito a mesma coisa que faço com as roupas, vejo se os amigos tem, depois procuro em sebos, só compro novo se precisar e não achar, ou se me apaixonar perdidamente. Uma edição completa, linda, capa dura, dos poemas da Sophia de Mello Breyner? Vale!

O mesmo para roupas. Aquele vestido que ficou perfeito em você, te fez sentir a pessoa mais linda do universo, e é tudo que você sempre quis e não sabia? Vale. Se você puder, tiver  o dindin, vai sem culpa e economiza no resto. Porque usar e ter algo (seja roupa, sapato, livro, bolsa, maquiagem, caderno) que você realmente ama muito, vale a pena e faz bem pra auto estima.

O que quer dizer oportunidades imperdíveis?

Outra categoria perigosa para os compradores impulsivos e compulsivos. Mas, essa eu aprendi conforme fui me arrependendo. Oportunidades imperdíveis são aquelas promoções maravilhosas, que dificilmente você vai achar, ou uma peça muito diferente, que você nunca viu antes na sua vida, ou você está em um lugar que não vai voltar tão cedo. Por exemplo, em viagens, você encontra algo que é muito típico do lugar, e não tem planos de retornar, fica com dó de gastar e depois se arrepende amargamente. Já aconteceu muito comigo. Livros da Cosac Naify ou da Zahar em promoções absurdamente boas, pode até não ser aquilo que eu preciso, ou ainda não me apaixonei, mas dependendo do preço, vale a pena. Ou um livro muito raro que nunca encontrei antes, ou aquele tecido indiano maravilhoso que eu nunca achei antes a não ser na viagem perfeita para a Índia (que ainda não fiz, mas vai que… rs). Aquela sandália nordestina que você não acha em lugar nenhum, e achou, vai que vale.

Minha dica é: Antes de decidir que você não vai comprar por um mês, dois, três, um ano, arrume suas coisas. Conheça o que você tem, observa o que você realmente usa e gosta. Se conheça. Seu gosto, seu estilo, suas preferências, suas prioridades. Já tira tudo aquilo que não te serve, desapega, dá para as amigas e amigos, ou vende, ou doa para onde você quiser, mas tira da sua vida essa energia acumuladora e estagnadora. Assim, você vai entender muito melhor aquilo que você realmente precisa, se apaixona e as oportunidades que você não pode deixar passar sem se arrepender.

Dietas, assim como essas metas, podem ser úteis em casos urgentes, mas tendem a fazer a gente estragar tudo depois. Todas as vezes que fiz dietas, fiz pensando “quero que acabe pra eu comer um brownie gigante”. O que geralmente é a prova de que não vai dar certo. Temos que fazer mudanças estruturais, mudanças no nosso estilo de vida. Como fiz com a comida, e parei de precisar fazer dietas, e como faço com o consumo. Nunca preciso parar de comprar por um ano, porque consumo moderadamente sempre. Posso comer o brownie gostoso quando der vontade, porque não como todos os dias.

Lembrando que, objetos nunca serão as coisas importantes da nossa vida, você não é definido pelo que você tem, você não é melhor ou pior do que ninguém por ter menos coisas, roupas, objetos, sapatos, livros, etc. Consuma de acordo com a sua possibilidade, e considerando que o mundo precisa de menos consumo! Não se deixe levar pelos looks do instagram, as pressões, modas, seja autêntico, use o que você realmente precisa e ama.

Claro que existem exceções a tudo. Eu trabalho com livros, eu preciso ter mais livros que muita gente. Preciso de referência, consulta, é normal que eu gaste mais com isso e desapegue menos. Quem trabalha ou ama muito moda precisa ou quer mais roupas, bolsas, sapatos, e tudo bem. Vamos entender nossas necessidades, sem excesso de punição, mas com mais consciência.

Entre em contato com quem está na mesma, tem tantos sites, páginas, grupos de gente que doa, vende, desapega de coisas, entra nesse fluxo, que eu considero ser o futuro. E claro, sem culpa quanto aos casos que já mencionei. O importante é saber dosar o que vale o nosso consumo, e consumir com inteligência.

Espero ter ajudado.

 

 

2 Comments
  • Ravena
    Responder

    Adorei seu texto, pouco antes tinha acabado de comprar um tênis que estava em promoção, rsrsrsrs! Desapegar do consumismo é bem difícil, falo pq sei bem o q é isso, e aconteceu de repente, quando percebi estava comprando tudo o que via pela frente, agora um pouco mais calma com as compras, refleti e cheguei a conclusão de que elas estavam ocupando um espaço vazio que havia em mim, embora momentaneamente, e refletindo mais ainda pude ver que a insatisfação c o meu trabalho era um grande fator p o consumo, digo era pq a pouco tempo pedi demissão e vou atrás do que eu realmente gosto… A mensagem do seu texto está fantástica. Obg por compartilhar.

    5 de julho de 2017 at 00:49

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