Carteira assinada

Carteira assinada

Existem tantas coisas mágicas e curiosas que acontecem na minha vida que eu costumo dizer que, mesmo se não fizesse ficção profissionalmente, acabaria sendo obrigada porque a minha vida real supera muitas vezes a dramaturgia em originalidade. Protagonizo diariamente várias cenas que se eu colocasse em um filme iriam dizer “a roteirista forçou a barra”. Pois é. Minhas amigas já sabem e pedem sempre a cartela de novos relatos que “só comigo” poderiam ter vez.

Grande parte dessas histórias vem do fato de que sou muito procurada para dar conselhos. Sempre fui, desde criança. A primeira grande situação que consigo me lembrar foi aos 8 anos. Organizei um grupo de apoio a crianças que tinham pais separados na escola, e eu, que sempre tive pais separados, dava dicas, apoio, colo, ombro amigo para ajudar os coleguinhas a passar pela separação dos pais da melhor maneira possível, me sentindo o suprassumo da experiência.

Até mesmo meus pais me pediam orientações e opinião para sérias decisões, como mudar de apartamento, tomar uma decisão na carreira, comprar algum objeto caro, e até na vida romântica ainda durante a minha infância. Praticamente todas as vezes que fui chamada na sala da diretora foi para dar minha opinião sobre mudanças que ela queria implantar na escola.

Não sei exatamente o motivo, às vezes acho que o ascendente em áries é que dá essa impressão de que eu sei o que estou fazendo da minha vida, e que faz as pessoas acreditarem que saberei o que fazer com a delas. Desculpa justificar absolutamente tudo com astrologia, é um vício pior que açúcar. Mas, voltando ao assunto, vamos combinar que decidir a vida dos outros é coisa que a gente faz bem, né. Problema alheio é a coisa mais fácil que tem no mundo de resolver. E como eu sempre soube disso, a procura por conselhos só aumentou com o passar do tempo.

Mesmo sendo uma adolescente pouco experiente em comparação às minhas amigas, sempre fui solicitada para opinar, aconselhar, até mesmo por desconhecidos. A minha carteira da sala de aula virava um divã nas aulas mais chatas ou no recreio, e até mesmo quem não ia muito com a minha cara, ou que mal me conhecia, sabia da fama e ia solicitar alguma recomendação. Que eu sempre dei, de muito bom grado. E com vaidade. Subia na pose, fazia carão, e aquela voz de quem sabe do que está falando.

Quando adolescente foi esse meu grande escape, minha maneira de me encaixar. Todo mundo se sente peixe fora d´agua aos 15 anos, e eu não era diferente. Muito insegura, me achava pior que todo mundo, feia, sem graça, achava que nunca teria uma vida interessante, que nunca ia namorar, que nunca ia fazer um milhão de coisas que fiz pouco tempo depois. Não era popular, não era das meninas bonitas do colégio, mas meu grande trunfo me salvava, era a mim que todos recorriam para saber o que fazer. Isso me garantia certo lugar de prestígio e segurança. Quer dizer, na minha cabeça eu achava que era isso. O que é uma grande bobagem. Eu estava segura por ser eu mesma, como todos nós estamos, simplesmente pelo fato de sermos únicos, inconfundíveis, incomparáveis, micro universos completamente originais.

Mesmo meus escritos, meu blog, etc não sendo propriamente de ajuda (embora eu acredite que a arte sempre é uma forma de salvar a si e aos outros), é inacreditável a quantidade de mensagens que recebo com pedidos de ajuda, orientações, conselhos, que nada tem a ver com meu trabalho. São questões familiares, amorosas, com amigos, no trabalho. Coisas que muitas vezes fico até com medo de responder, porque não tenho a competência necessária. Não sou psicóloga, nem cartomante, nem pedagoga, ou qualquer tipo de profissão que tenha o devido estudo para ajudar a solucionar os problemas dos outros. Mas, acredito que se tanta gente recorre a mim, tenho de alguma maneira a obrigação e a missão de ajudar da maneira que posso.

A coisa é tão forte que já me aconteceram situações engraçadíssimas. Uma vez eu estava na Lapa, e uma amiga antiga, que fazia anos e anos que não via, me encontrou, me puxou para a calçada mais próxima e disse “Ainda bem que eu te encontrei, eu estava precisando tanto de um conselho”, e é claro que minha programação inicial foi por água abaixo e eu fiquei a noite toda dando a ela meus famosos conselhos. Desconhecidos me pedem conselhos, pela internet, na rua, amigos de amigos que ouviram a lenda dos meus aconselhamentos. Até meus terapeutas ao longo da vida me pediram conselhos ao final da consulta. Amigos me “repassam” seus ex namorados para que eu os console, meus ex amores vem me pedir conselhos sobre seus novos amores. E a mais recente, e quase surrealista, foi uma ligação que era engano. E logo depois de eu avisar que a pessoa havia ligado para o número errado, ela disse “Ah, desculpa. Mas, sem querer parecer estranha, já que você atendeu, posso te pedir um conselho?” E não é que eu dei mesmo? Caixas de supermercado, professores, e até a minha síndica me contou na esquina do prédio uma história realmente muito, muito íntima, e eu tinha apenas perguntado com aquela educação e desinteresse de praxe, acompanhado de um tradicional sorriso amarelo: “tudo bem?”

É claro que eu tenho que me priorizar, esse tem sido um dos aprendizados mais difíceis e importantes da minha vida. Não posso dar conta dos outros se não consigo dar conta de mim. Aquela história de colocar a máscara primeiro em você, e depois na criança. Eu preciso vir em primeiro lugar, e terão muitos momentos que não conseguirei, não poderei, ou mesmo não terei vontade de ajudar as pessoas, e está tudo bem. Afinal de contas, sou um ser humano, com suas próprias demandas, preocupações, egoísmos, prioridades, e com as mesmas 24 horas de todo mundo, precisando resolver tudo aquilo que todo mundo tem pra resolver. Não posso abraçar o mundo, não posso pegar todo mundo no colo como eu tenho vontade, nem sempre terei tardes e tardes para me dedicar aos problemas dos outros. E nem sempre eu tenho saúde, disposição, verbo, competência, ou mesmo saco para isso. Mas acredito que viemos com as qualidades que precisamos para cumprir nossa missão no mundo, que viemos com a cruz que podemos e temos que carregar. Penso que tudo aquilo que nos aparece recorrentemente tem algo a nos dizer, ensinar. Hoje tenho mais claro que nunca que faz parte da minha missão nessa existência participar, colaborar e ajudar os outros de diversas maneiras. Se sou, e sempre fui tão procurada por amigos, familiares, e como contei, por completos desconhecidos, é porque de alguma maneira inspiro isso, transpareço isso, ofereço conforto e passo confiança, o que considero um dom bonito. Saber ouvir é um talento, e hoje eu agradeço por ter vindo com esse super poder chamado empatia.

Na maioria das vezes meus conselhos não são nada além de ajudar a entender o que a pessoa realmente quer. Às vezes eu me dedico mais, sem falsa modéstia na arte do conselho, mas na maior parte das vezes o que eu faço é realmente ouvir. Ouvir com o coração, dando minha atenção total, oferecendo companhia, e tentando libertar a pessoa de culpas, conceitos pré estabelecidos, noções de que ela não pode ou não deve determinadas coisas. Na maioria das vezes a pessoa já sabe o que quer fazer, só está com medo, ou colocou na cabeça que não pode, ou está preocupada demais com a opinião dos outros, ou com o medo de ser otária. Aliás, outro tema que preciso muito falar. O que acontece conosco que temos tanto medo de sermos otários? Que bobagem é essa, gente? De onde surgiu, do que se alimenta, como ganhou tanto espaço em nossos corações? Mas bom, isso é assunto para outro momento. Apenas guardem a reflexão.

Às vezes eu me sinto até culpada de levar o crédito por ter ajudado, porque quem se ajudou foi a própria pessoa na dúvida. Eu, talvez, só tenha sido o veículo para que ela se ouvisse. É claro que também puxo a orelha se eu achar que a pessoa está mandando mal. Afinal de contas, quem mandou perguntar o que eu acho? Falo com jeitinho quase sempre, exceto se eu estiver com fome, ou se a pessoa realmente passar dos limites. Mas não posso me omitir. Ser procurada para ouvir os problemas e dúvidas das pessoas é uma honra mas também uma grande responsabilidade. Que eu tento cumprir da maneira que posso, sendo sincera, amorosa e paciente (quase sempre).

Como eu disse, tenho consciência de que ouvir, ajudar os outros é a minha missão. Muitas vezes sinto que sou portadora de palavras que fogem ao meu controle, são simplesmente enviadas a mim, sou apenas veículo. Os céticos, por favor, perdoem o meu misticismo. Mas realmente acredito nisso. E cumpro minha função, hoje em dia com muito mais humildade e responsabilidade, com a noção de que ouvir e aconselhar os outros é apenas mais uma das maneiras de estar a serviço. Não cabe ter vaidade com aquilo que não é meu, está em mim apenas para chegar aos outros. Não sei se dá para entender o que estou dizendo.

Se vocês me perguntem (e mesmo se não perguntem porque estou escrevendo e vou falar aquilo que me der na telha, como sempre faço), eu diria que o sentido da vida, pelo menos da minha vida é estar a serviço. A serviço do mundo, dos outros. Já achei que servir era pejorativo, hoje acredito que todos nós viemos para servir.  Todos nós temos um papel, uma missão, um propósito de vida para ajudar a melhorar o mundo, e só consigo pensar que bobagem é querer fugir disso. Como boa funcionária que sou, virginiana competente e obediente (olha aí a astrologia) cumpro feliz a missão que vim exercer, o trabalho que tenho para oferecer, que não muda lá grandes coisas, mas muda as pequenas. E eu amo as pequenezas.

Escrever é mais uma das maneiras de cumprir essa missão, a melhor, a mais completa, a que mais me realiza, e a que acredito ser a de mais longo alcance também. Mas responder uma mensagem no instagram ou facebook também é, ajudar um desconhecido no ônibus ou no telefone faz parte, completa e integra o que sou e o que vim fazer, e venho fazendo. Não sei se ajudo efetivamente, a intenção é sempre essa. Se eu já te ajudei com alguma questão, através dos meus textos, ou mesmo através da Clara Mello pessoa física, obrigada, você me ajudou a ser o que vim ser. Depois que entendi isso, fico até um pouco incomodada quando me agradecem, porque não é um favor, é troca.

Gosto do meu trabalho. Gosto muito. Vim com dons que são verdadeiros presentes. Bato o cartão e cumpro feliz o expediente, de carteira assinada. Por isso mesmo, é claro, com direito a folga, férias, horário para almoço, eventuais faltas, uma possível aposentadoria (apesar do Temer), e o direito de não atender fora de horário comercial. E com aquela permissão básica concedida por mim mesma de dizer um sonoro e sincero não quando eu, de fato, não tiver o que e como doar.

Brincadeiras a parte, eu amo ajudar. Eu realmente amo. Não o tempo todo, nem todos os dias, não a respeito de tudo, sendo bem sincera, até mesmo não a todos. Mas, independente de quem você for, se você precisar, se eu realmente puder, se você sentir que precisa, que deve, que quer…Sim, eu posso te dar um conselho.

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