Bonita pra quê?

Bonita pra quê?

Eu queria ser muito bonita. Tipo muito. Bonita mesmo, linda, maravilhosa, musa. E meus amigos, ou os que podem ver minhas fotos aqui, ou no google, talvez me dirão “Mas você é bonita”, e eu vou agradecer sinceramente, mas vou continuar querendo ser e me sentir muito, muito bonita. Tenho consciência de que seria categorizada como “não feia”, pela maioria das pessoas em uma pesquisa de opinião, se fosse o caso. Me sinto até um pouco ridícula de dizer que tenho problemas de auto estima, ou que sofro por não me achar bonita, sendo tão claramente “dentro do padrão”. E até parei de falar um pouco sobre isso, justamente por esse motivo, e por saber que meu problema não é nada diante do de várias outras mulheres que passaram a vida aprendendo a detestar seus corpos.

Ainda assim, mesmo “sem motivos” e me sentindo um pouco ridícula ao dizer, o sentimento é sincero. Tenho graves problemas de auto estima, e queria, mas queria mesmo ser muito, muito bonita. Como atrizes de cinema, ou se eu quiser ser mais moderna, como essas moças perfeitas do instagram, como essas mulheres que eu e o mundo consideramos muito muito bonitas. Tipo capa de revista, padrão audiovisual, comercial de perfume.

Mas, antes que vocês me digam de novo, “Você é bonita”. Eu não estou dizendo isso tudo para ouvir que sou bonita (embora eu goste de escutar, e posso admitir sem problemas porque esse ponto já está bem resolvido. Santa terapia). Estou falando isso tudo justamente para me perguntar: Por que é tão importante ser bonita?

Racionalmente, acho beleza bastante inútil, na verdade. Até porque é algo totalmente abstrato, pessoal, e sem importância mesmo. Para que serve ser muito bonita? Tenho outras qualidades que construí, e sobre essas sim, eu tenho mérito porque trabalhei, me esforcei e melhorei para tê-las. De uns anos para cá, tenho tentado elogiar mais as mulheres que conheço por suas inteligências, talentos, caráter, e não só por serem bonitas. Ou, tentar deixar por último esse item, como um plus. “E ainda é bonita”.

Sei como as mulheres sofrem pelas duas coisas, por não serem consideradas belas, ou por serem apenas consideradas belas. Como se a existência de uma mulher fosse ser ou não ser bonita. E por isso mesmo tento reconhecer as verdadeiras virtudes das mulheres, não importa quão lindas fisicamente sejam.

Passei minha adolescência sendo a feinha, por isso tentava me conformar de que eu, ao menos, era a inteligente. Cresci, e o tempo foi generoso comigo, me tornei uma mulher normalmente considerada bonita na média. E por isso, muitas das vezes preciso reafirmar que sou inteligente. Parece louco, mas é essa gangorra mesmo.

Não tenho o sonho de trabalhar como miss, modelo, ou mesmo atriz (o que também não implica em necessariamente ser bonita), meus sonhos profissionais e pessoais não incluem sequer mostrar a mim, salvo por uma orelha de livro, ou meia dúzia de fotos no google que ilustram matérias. Então, por que?

Passei anos dizendo a mim mesma, espalhando bilhetes de auto estima pela casa, nos espelhos “Ei, você é linda”, “Para de ser louca, você tá gata”, mas agora tudo isso me parece um pouco sem sentido. Não quero mais dizer a mim que sou bonita, porque mesmo quando acredito nisso,  é ainda insuficiente. Quero agora, ao invés de espalhar frases elogiosas no meu armário e no meu banheiro, me perguntar sinceramente:  Por que e para que quero beleza?

Tudo bem, virginiana, filha de Oxum, influência de leão ainda, sei lá, marte em libra. Ego demais, talvez… Quer aparecer, alma de artista.Talvez várias questões minhas, pessoais, mas sinto que há um pouco desse sentimento em várias das moças que me cercam. Pelo menos, as da minha geração. Tenho várias amigas, que são lindas, com certeza consideradas muito bonitas por muitas pessoas. Mas, para além disso, são ótimas profissionais, inteligentíssimas, esforçadas, brilhantes, cheias de caráter, empatia, boas ideias e bom coração. E que, por mais que tenham todas essas qualidades, inclusive beleza, não se dão por satisfeitas, e ainda se sentem feias, ou insuficientemente bonitas.

Já tive esse diálogo várias vezes, e foi a minha vez de dizer “Mas você é bonita”, e elas rebatem “mas eu queria ser mais”, “eu queria ser como essa e essa aqui”. E, posso dizer sem problemas que eu mesma me sinto insegura perto de pessoas muito bonitas, e que eu julgo muito mais bonitas que eu.

Não quero encontrar culpados, apenas reconhecer o fenômeno, e propor a mim (e quem mais se sentir convidado) diminuir radicalmente a importância que damos a beleza.

Acho lindo o nosso empoderamento, acho incrível a gente estar se esforçando para reconhecer e amar a beleza que existe em todo tipo de corpo, em tantas e diferentes formas. De nos sentirmos lindas com nossas estrias, celulites, gordurinhas, magreza, olheira, espinhas, pelos, etc. Acho lindo ver na vida ou nas redes o “tombamento”, “a lacração”. E tantas mulheres dizendo a si mesmas e às outras que são lindas. E, como eu já disse antes, gosto de ouvir que sou bonita. Não quero e não preciso negar isso.

Acho incrível a mídia, as propagandas (que são sim, muito importantes e afetam muito nossa auto estima) estarem incluindo outros tipos de beleza e corpos, e acabando com essa noção boba de que há uma fórmula, forma ou caminho único para a beleza.

Mas, como sou problematizadora incansável de mim e do mundo, tenho pensado muito desde o meu último aniversário, que o pedido do ano não seria mais para me achar bonita como sou, mas para parar de superestimar beleza. Acho que meu feminismo já serviu para que eu ampliasse meu conceito de beleza, mas ainda não adiantou para relativizar sua importância.

Não quero mais o esforço para me reconhecer bela com meu corpo, defeitos, etc. Quero é não pensar nisso, quero é pensar antes de, se sou bonita ou não, e o quanto, que sou boa pessoa, boa amiga, boa profissional, que estudo, me esforço, sou determinada, corajosa. E, só de vez em quando, lá em último lugar, quem sabe, talvez, para mim e para mais alguns, bonita. Quero parar de pensar diariamente como ficar mais bonita, ou de me doer e massacrar com comparações, e pensar mais em como ser uma pessoa melhor em todos os outros âmbitos, efetivamente mais úteis.

Quero continuar ficando feliz quando alguém diz que sou bonita, sim, mas também poder dizer a mim mesma com serenidade: “Legal, mas para que que isso serve mesmo?”

 

1 Comment
  • Fátima Almeida
    Responder

    Vai por mim, quando ficar menos jovem vc vai continuar bonita e incrivelmente inteligente e por seu caráter impor a todo mundo que apesar de bela não é a beleza que te define.

    10 de Abril de 2017 at 23:28

Post a Comment