Poemas favoritos

Poemas favoritos

Hoje é dia da poesia, e mesmo tendo sido até bem pouco tempo atrás, apenas uma moça-prosa (no quesito criação), é claro que a poesia marcou e muito a minha vida como leitora, e influenciou a minha escrita. Mas mais que isso, a poesia para mim foi refúgio, abraço, porrada e formação de caráter, tudo ao mesmo tempo. E aproveitei a deixa para listar a mim mesma (e a quem mais puder interessar), alguns dos poemas que mais me marcaram e que posso ousar chamar de favoritos.

Não está na ordem de preferência, porque ela não existe. Está na ordem aleatória da minha lembrança mesmo.

 

Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.

Sophia de Mello Breyner Andresen.

É muito difícil escolher um só poema da Sophia, que é uma descoberta relativamente recente, mas com certeza uma das minhas poetas e escritoras preferidas. Essa mulher é uma sereia diva rainha, que eu recomendo imensamente. Como ela é portuguesa, seus livros no Brasil são raros e caros, mas a internet facilitou um bocado a nossa vida, e dá para ter contato com a obra dela graças a muitos pdfs. E claro, sebos, estante virtual, e tudo o mais.

Participei do projeto Toda poesia e escolhi esta pérola da SEREIA Sophia para ler.

 

Busque Amor novas artes, novo engenho
Para matar-me, e novas esquivanças;
Que não pode tirar-me as esperanças,
Que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Pois não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas conquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.

Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde;
Vem não sei como; e dói não sei porquê.

Camões.

Pense num poema que merece meia hora de arre égua, como diz minha comadre Larissa. Com certeza, é uma canalhice escolher um só poema de Camões para dizer que é preferido. Eu poderia e deveria incluir milhares, sobretudo se eu estivesse aqui fazendo uma análise literária. Mas estou citando aqueles que mais mexeram com meu coração, e que marcaram minha vida. Este, com certeza absoluta, indo e voltando, é um dos poemas mais importantes da minha vida, se não o mais importante. Me arrepio toda santa vez que eu leio. Nunca para de me causar estranhamento, eu nunca me acostumo com a beleza disso.

 

Soneto do amor total

Amo-te tanto, meu amor… não cante
O humano coração com mais verdade…
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade

Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim muito e amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

Vinícius de Moraes

É claro que Vinícius não poderia estar de fora da minha antologia pessoal de vida. Foi um dos meus primeiros contatos com a poesia, e uma das minhas primeiríssimas paixões literárias. E com certeza um dos responsáveis pelo meu romantismo incurável (culpa que ele divide com a vênus em câncer).

Eu exercitei muito a criatividade e técnicas brincando de reescrever poemas de Vinícius, fazendo versões minhas dos sonetos famosos.

Deixo com vocês a RAINHA Maria Bethânia e sua voz maravilhosa:

 

Das utopias

Se as coisas são inatingíveis… ora!
Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!

Mario Quintana.

Essa pequena preciosidade nem parece de explicação, né? Coisa linda, que sempre me motiva e me emociona.

 

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive

Ricardo Reis.

Embora Ricardo Reis seja meu heterônimo menos preferido de Fernando Pessoa (porque todos são muito preferidos), este poema é um dos meus preferidos nesse mundão, e “põe quanto és no mínimo que fazes” é daqueles lemas de vida que estão tatuados na alma.

 

Amar

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: aqui… além…
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente…
Amar!  Amar!  E não amar ninguém!

Recordar?  Esquecer?  Indiferente!…
Prender ou desprender?  É mal?  É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder… pra me encontrar…

Florbela Espanca

Na minha itensíssima adolescência, Florbela Espanca era leitura obrigatória e este poema com certeza foi muito gasto em diários e cadernos da eu menina, engatinhando no amor e nas letras.

 

Incenso fosse música

isso de querer ser
exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além

Paulo Leminski.

Encerro aqui a pequena lista, com esta joia de Leminski que já foi escrita no meu all star dos 15 anos, na parede do meu quarto, e com certeza, cravada no meu coração.

Essa lista diz muito de quem fui e sou, e infelizmente, conta com poucas mulheres, porque fui ler mais mulheres recentemente, nos últimos anos. Mas bom, antes tarde que nunca. Só há pouco tempo fui descobrir mulheres que a história tentou e tenta apagar, e dar o espaço privilegiado da minha estante e da minha atenção. São algumas delas: Alice Ruiz, Elisa Lucinda, Adélia Prado, Viviane Mosé, Matilde Campilho, Luiza Neto Jorge, Lidia Jorge, Cecília Meireles, Francisca Julia, Angélica Freitas, Ana Cristina Cesar. Certamente na lista de alguns anos a frente, estes nomes estarão ainda mais marcados na minha lista de leituras de formação de caráter.

Em tempo, obrigada a todas as poetas e os poetas de todos os tempos que deixaram e deixaram essas maravilhas que fazem a vida ser menos dura e valer a pena.

Aproveito para compartilhar com vocês a frase genial que ouvi da minha professora diva Mônica Figueiredo. “Obra de arte é quando você olha pra uma porra e fala: Caralho!”.

É ou não é, gentes?

E a sua lista, qual é? Quais são os poemas que te fizeram ser quem é?

1 Comment
  • Felipe Nascimento
    Responder

    Os tres que ate o presente momento tem definido minha vida sao:

    The Blue Bird – Bukowski

    há um pássaro azul em meu peito que
    quer sair
    mas sou duro demais com ele,
    eu digo, fique aí, não deixarei
    que ninguém o veja.

    há um pássaro azul em meu peito que
    quer sair
    mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
    fumaça de cigarro
    e as putas e os atendentes dos bares
    e das mercearias
    nunca saberão que
    ele está
    lá dentro.

    há um pássaro azul em meu peito que
    quer sair
    mas sou duro demais com ele,
    eu digo,
    fique aí, quer acabar
    comigo?
    quer foder com minha
    escrita?
    quer arruinar a venda dos meus livros na
    Europa?
    há um pássaro azul em meu peito que
    quer sair
    mas sou bastante esperto, deixo que ele saia
    somente em algumas noites
    quando todos estão dormindo.
    eu digo, sei que você está aí,
    então não fique
    triste.

    depois o coloco de volta em seu lugar,
    mas ele ainda canta um pouquinho
    lá dentro, não deixo que morra
    completamente
    e nós dormimos juntos
    assim
    com nosso pacto secreto
    e isto é bom o suficiente para
    fazer um homem
    chorar, mas eu não
    choro, e
    você?

    Todos cantam sua terra, também vou cantar a minha – Torquato Neto
    (resume esse ano em estar morando so longe-perto de the)

    sou um homem desesperado andando à margem do rio Parnaíba
    sou um homem com Glauber Rocha na cabeça e uma câmara na mão
    andando fico à margem de minha terra:
    TRISTERESINA.
    terra nos olhos da lente.
    só filmo planos gerais.
    planos.
    o meduna.
    ando pelas ruas mas tudo de repente é novo para mim:
    a vermelha. a grama. o meu caso de amor. a estação da estrada de
    ferro teresina-são luís um dia de manhã.
    minha terra tem palmeiras de babaçu onde canta o buriti.
    e a melhor água do mundo.
    e um poço.
    e um menino.
    como posso agora cantar minha terra;
    estando tão longe-perto dela.
    como posso eu e essa miséria louca
    descobrir destruir as ruínas do lar
    citação: Não teremos destruído nada se não destruirmos as ruínas

    Por fim, Rainer Maria Rilke

    Solidão
    A solidão é como uma chuva.
    Ergue-se do mar ao encontro das noites;
    de planícies distantes e remotas
    sobe ao céu, que sempre a guarda.
    E do céu tomba sobre a cidade.

    Cai como chuva nas horas ambíguas,
    quando todas as vielas se voltam para a manhã
    e quando os corpos, que nada encontraram,
    desiludidos e tristes se separam;
    e quando aqueles que se odeiam
    têm de dormir juntos na mesma cama:

    então, a solidão vai com os rios…

    23 de Março de 2017 at 08:42

Post a Comment