O mau de ser boa

O mau de ser boa

Sou uma pessoa bastante compreensiva, esta é uma das minhas qualidades, e também dos meus defeitos. Porque como bem sei, e não canso de constatar e repetir, nossas misérias são só a outra face das nossas grandezas. E além de compreensiva, sou também paciente. E tenho por natureza e escolha (que reafirmo todos os dias) a doçura, a doação, e a quase (veja bem, quase) incapacidade de ser grosseira, rude, indelicada com quem quer que seja.

Tenho, e por isso sou grata, grande capacidade empática, de me colocar na dor e no lugar do outro, de entender e aceitar as diferenças, temperamentos difíceis, demandas e necessidades dos outros. Tendo a optar por todos os caminhos possíveis antes de uma briga, de uma palavra ofensiva, de um caminho que não seja gentil.

É isso que você já entendeu. Sou a chamada boazinha. Embora eu odeie este termo, e odeio ainda mais quando me apontam como tal. Boazinha é a branca de neve. Eu sou simplesmente gentil. E boa mesmo, se eu quiser parar de modéstia. E não boa porque sou iluminada, filha eleita de oxalá, ser humano evoluído (como alguns amigos gostam de apontar com admiração e por vezes ironia), boa por uma questão de natureza serena e também de escolha. É também uma escolha, uma escolha de estilo de vida, e do que eu quero que saia do meu corpo e do meu coração. Porque sim, na maioria das vezes, o que envenena nosso coração não é o que está no exterior, é o que sai de dentro de nós. E opto por me manter assim mesmo, ingênua, pura, boa. Sem inha. Boa. Boazona. Cada vez melhor.

Minha irmã Nina, no alto dos seus nove anos, disse um dia desses, cheia de poses e pausas: “Já fui ingênua. FUI. Não sou mais”. Preciso pedir ajuda de Nina, pois mesmo já um bocado passada dos nove anos, ainda sou muito ingênua. Menos do que já fui um dia, é claro, mas ainda muito ingênua. E, por mais que venha sentindo o peso das decepções, das frustrações, das violências do mundo, tenho a impressão de que em mim sempre se manterá algo de infantil, pueril e puro. Acho que terei sempre um coração limpo, e um trabalho de virginiana até o fim da vida, de continuar higienizando e organizando minha alma e meu miocárdio.

Gosto de ser assim, gosto de ser quem eu sou. Uma das coisas que a idade me deu (falo idade como se fosse grande coisa os meus 23 anos, mas o que posso dizer? É tudo que tenho até então), foi o abraço em mim mesma, o acolhimento da minha personalidade com orgulho dela. Aprendi a me amar e me admirar, a gostar do meu corpo, da minha voz, dos meus talentos, dos meus valores, das minhas limitações, e a querer não mais ser outra, mas sempre a melhor versão de mim mesma. Não quero mais ser outra pessoa, porque tudo que eu tenho de bonito, de valoroso, e que mais amo, conquistei por ser quem eu sou. E me considero um ser humano de sucesso.

Não de sucesso profissional, não em termos financeiros, ou de fama, ou de conquistas palpáveis ou visíveis. Me considero vitoriosa e bem sucedida em experiências humanas.

Acho que os valores do mundo estão muito errados. Acho que está tudo de cabeça para baixo. Ser gentil, generoso, bom, é ser otário, é ser burro, mané. O dom de perdoar, que graças a deus e a mim, eu tenho de sobra, é coisa de gente otária. Bom mesmo é ser mal, ou no mínimo, durão. Bom mesmo é ser orgulhoso, é ser de temperamento intempestivo, é a força bruta, é a esperteza acima do cuidado com o outro. É a descrença e a desconfiança nos outros e na beleza do mundo. O bom é o bobo. O papel de idiota ficou reservado àqueles que, como eu, fazem questão de não perder a graciosidade, a gentileza e a empatia.

Cada vez mais percebo o quanto isso é completamente equivocado, e o quanto a doçura tem de força e de poder. E o quanto mais, em tempos como esses, ser meiga é ser revolucionária e resistente.

Porém, e dito tudo isso já posso chegar no meu porém, ando cansada. Ando muito cansada. Na verdade, exausta, exaurida, sugada. Ser boa é muito cansativo.

Cabe a nós, que pensamos nos outros sempre, e que somos quase (novamente, quase) incapazes de uma grosseria, de um ato violento, de uma palavra de ofensa, de magoar de propósito, somos muito demandados. Somos demandados ao extremo o tempo todo. Somos sobrecarregados de tudo. Porque nós entendemos, porque nós perdoamos, porque nós compreendemos, porque nós “não ligamos”, porque nós ouvimos, porque nós aliviamos, porque nós socorremos. E sim, faço tudo isso porque eu gosto, porque quero, porque sei fazer. Mas ando extremamente cansada de ter que carregar tudo, e de levar muita porrada emocional e psicológica.

Aprendi com meu querido Jesus a oferecer a outra face, mas, desculpa aí, Jê, estou exausta. Me sinto o tempo todo exigida, demandada, sobrecarregada com as necessidades, caprichos, desejos, frustrações, sensibilidades, suscetibilidades dos outros. Ando com muita vontade de ser eu a maluca, que sai agindo por impulso, que fala “o que quer na cara”, porque “sou assim mesmo”, porque “não ligo para o que os outros pensam”. E que os outros é que tenham que relevar, e não eu. Eu preciso, ao menos, de férias.

As pessoas me exigem demais. Me exigem demais o tempo todo. E se fazem isso, eu sei, é por minha responsabilidade. É porque eu dei demais, e permiti que me pedissem demais.

Quando sou abundante, dou pelo prazer de dar. E porque sei que essa é uma das minhas missões no mundo. Mas ando sem forças, e mesmo com meus gritos roucos, ninguém compreende que é hora de parar de me exigir. Sobram para mim demandas, cobranças, e pouquíssima preocupação sobre o meu estado de espírito, sobre se eu quero, se eu posso, se eu tenho algo a oferecer. Estou vazia, e cansada. E seguem me pedindo o que não tenho para dar.

O ruim de ser uma pessoa que diz muito sim, é que seu não é incompreendido. Ninguém pensa que, se você disse não, é porque realmente não quer ou não pode. Sobra revolta e incompreensão. Mas e aquele papo de que o que você joga pro astral, volta pra você? Cadê a compreensão que eu joguei e jogo todos esses anos?

Não me entenda mal. Gosto de ser boa, mas ando cansada de não ter retorno, ando cansada do abuso, de ser exigida demais. E ando muito, muito cansada de perceber que em quase todas as minhas relações, há uma preocupação muito maior em receber do que em me perceber. E nem digo dar, porque não peço nada. Aliás, só uma coisa: A compreensão do meu limite.

Ando cansada de ser boa, e isso é preocupante. Aos que me dizem constantemente “Impossível te imaginar irritada”, “até brigando você deve ser fofa”, quero dizer que estou bem perto do meu limite, a dois passos da caixa de pandora, e acho melhor decretarmos férias a mim, porque eu já estou de greve geral.

É desabafo pessoal, mas é também alerta. Quantas vezes eu posso ter feito isso com outras pessoas “boas”? Quantas vezes fazemos isso sem perceber? Será que olhamos para o outro, e pensamos se ele realmente tem obrigação de fazer algo por nós? Será que reconhecemos o que aquela pessoa fez de bom por nós? Nos sentimos gratos? Nos preocupamos com o que ela tem para dar antes de pedir? Será que conseguimos ser generosos também, ou só sentimos fome? Como será que lidamos com os nãos que recebemos?

Quero propôr um exercício. Não vamos nos revoltar com o não de quem sempre nos diz sim. Vamos ter empatia pelas negativas, pelas faltas. Quando seu amigo, mãe, pai, amor faltar com você, quero propôr que o pensamento seja: Faltou porque não há o que dar. Será que não é a minha vez de oferecer algo?

E quanto a mim, já disse: Greve geral, total, absoluta. Fiado só amanhã. Não estamos recebendo demandas por tempo ilimitado. Estou cansada de ser boa.

Má não consigo nem quero, por ora, apenas sou. Sem escalas nem juízo de valor. Continuo sendo quase incapaz de uma grosseria. Mas esse quase fica cada vez mais latente. Convém lembrar que sou filha de Ogum, e tenho ascendente em Satanáries. E além disso, rio calmo tem por trás uma brava cachoeira. Então me deixa, e se puder, seja bom comigo.

A verdade é que estou cansada. Até pavio longo tem fim.

 

8 Comments
  • Nina L.
    Responder

    Suas palavras mostram o quanto a compreensão mútua e a consciência dos limites – de nós mesmos – importam. Que sejamos boas, mas que também sejamos cachoeiras se assim for necessário.

    10 de Março de 2017 at 19:44
  • Lucas
    Responder

    Senti que houve um alívio após o ponto final. Conversou muito com meus conflitos internos

    11 de Março de 2017 at 14:16
  • Patricia Mellodi
    Responder

    Eu te entendo… Você vai conseguir ser a pessoa boa que é sem mais ser a pessoa permissiva que te exaure. Não espere do outro esse limite. As pessoas são egoístas e famintas, sugam até a última gota que nos restam de energia. E quando você não tiver o que dar elas se afastam e se irritam, EU ACREDITO EM VAMPIRO! Somos nós que subimos o muro da autodefesa. Nós e ninguém mais.Todos temos que aprender a dizer não, é difícil pra nós, mas conseguiremos. vAMOS TER DESAFETOS, VAMOS TER GENTE FALANDO MAL DE NÓS, mas estaremos vivos. bjs

    12 de Março de 2017 at 17:08
  • Aline Souza
    Responder

    Nossa, que texto Clara! “A verdade é que estou cansada. Até pavio longo tem fim.” Essa frase define o momento que estou vivendo, aliás estamos. Obrigada por compartilhar o outro lado.

    21 de agosto de 2017 at 16:31

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